Não sei se William Shakespeare foi um pioneiro nestas coisas da ideologia de género, mas definitivamente acertou na pergunta do nosso tempo (que sim, é um desperdício de tempo). Toda a gente percebe que há uma diferença entre ser ou não ser, pode ser um conceito binário (pun intended). Mas ao não se ser, pode-se parecer, o que não significa que de facto se seja. Assim como há uma diferença entre o que se pode definir como identidade, e o que - de facto - se é. Quando alguém se "identifica" como sendo alguma coisa, não quer dizer que o seja, assim como ao afirmarmos que não somos determinada coisa, não quer dizer que não o sejamos. Pela negativa, se eu disser que não sou um espécimen de legume extremamente saudável e nutritivo, não quer dizer que tenha razão, obviamente não tenho.
A identidade pode ser vista como uma "etiqueta" mental que usamos para sermos reconhecidos de uma determinada maneira e gostamos que nos vejam da mesma forma que nos vemos a nós mesmos. No entanto, o que percebemos como a nossa identidade nem sempre corresponde à forma como os outros nos veem. O nosso ego é alimentado por uma forte identidade, e quanto mais forte ele pulsar, mais reconhecimento buscamos nos outros da nossa própria projeção de identidade.
Aqui é onde a ideologia de género se torna problemática, pois ela subverte a premissa básica de que a nossa identidade não é determinada, ou é pouco determinada, pelos nossos sentimentos ou conceitos identitários sobre nós mesmos. Na verdade, pode dizer-se que apenas se trata de uma opinião que temos de nós, que é provavelmente diferente, mas não mais válida, tão ou mais verdadeira, daquela que têm os outros, que nos veem e consideram da forma que bem entenderem.
E então, ser ou não ser? Qual é a questão mesmo?
O tentar impôr uma identidade aos outros, seja pelo prisma da identidade de género e das preferências sexuais ou, através da imposição de quaisquer outras ideias identitárias sejam elas de génese individual ou colectiva (sempre o socialismo, esse cancro), é por si só um acto impositivo de extrema agressividade e violência social, um claro atentado à liberdade alheia. Repare-se que individualmente pode pensar-se ser alguma coisa - identificar-mo-nos de uma determinada forma - sem sequer se permitir ao outro pensar que possamos ser outra coisa. Para além disso, ainda terá o outro de validar a minha identidade auto-atribuida, de me ver da mesma forma que eu me vejo a mim próprio, mesmo que isso contrarie toda e qualquer evidência biológica/científica/física e, como se não bastasse, têm de me atribuir os pronomes que eu exijo para validar uma não evidência muitas vezes puramente subjectiva.
Você sabe quem eu sou!? Claro que sabe! Eu estou a dizer-lhe. Só lhe resta acreditar e obedecer!
Parece-me a mim que, será muito mais inofensivo alguém ser chamado pelo pronome "errado" do que meter toda uma sociedade em polvorosa a discutir coisas tão primárias como "o que é uma mulher?" ou perante a estupidez e falta de bom senso atroz que é a imposição de "ideias" tão pouco fundamentadas, viáveis e úteis.
E esta febre identitária imberbe, proto-revolucionaria vai mais longe e quer-nos grafitar na testa, não o substantivo "pampa", mas uma série de disparates e etiquetas dividindo a sociedade em caixinhas, num apartheid multicolorido unicorniano, enaltecendo minorias muito "prá frentex" e atacando a maioria silenciosa e anuente (até ver) sem qualquer misericórdia.
Além disso, há uma inquietante componente doutrinária em que certos indivíduos parecem promover a dúvida sobre identidade e uma auto-afirmação de género alternativa ao mainstream, retratando-a como uma espécie de nova religião egocentrada, onde o profeta prega a negação do óbvio e a exploração de uma suposta diferença disfarçada de inclusividade. O grave é isto estar a ser promovido em escolas e universidades.
Como não somos cães (os wannabe`s que me perdoem) e não cheiramos o traseiro reciprocamente para determinarmos o nosso sexo. Como nos baseamos noutros sentidos e alvos para identificar o outro em termos de género, habitualmente de forma binária (o que é cada vez mais difícil, diga-se). Além disso, a menos que tenhamos algum interesse sexual ou romântico no outro, é para a grande maioria das pessoas completamente indiferente com quem ou com o quê se entretêm sexualmente, se podem ou não engravidar, se as mamas são de origem ou extra, se já pintaram o cabelo de azul ou se estão à espera que as hormonas façam efeito, isso é lá com "Elu", "Elx", "El@", "Elx", "El@", "El@s", "Ellxs", "Ell@s".
Resumindo, ninguém quer saber quem é que vocês são e ninguém tem nada a ver com isso. Apenas sejam e deixem ser.
"Every need got an ego to feed"
Bob marley - Pimper`s Paradise
