17 de maio de 2021

O fado do nacional porreirismo

Muito provavelmente e na senda que a vida tem de nos mostrar a sua ironia, é muito provavelmente o que mais apreciamos (e por sinal também o que quem de fora vem aprecia em nós portugueses) que nos vai lixar?
Pois é, nós os lusos temos uma certa crença de que somos uns gajos porreiros, autênticos cachorrinhos Labrador Retriver. Temos um sentimento amplamente difundido e consciente disso e alimentamos essa crença permanentemente. Se aparece um estrangeiro na Tv a realçar a nossa simpatia e disponibilidade, ficamos logo cheios de orgulho anfitrião. Até aqui nada contra...
O problema é que este vinco de personalidade colectiva, esta marca cultural, tendo as suas vantagens como é óbvio, tem alguns grandes inconvenientes...A começar por nos cegar relativamente a um facto muito evidente, mas que nos parece passar ao lado. Esse facto é simplesmente este: Por um lado nem toda a gente simpática é boa e bem intencionada, e por outro, nem toda a gente que é menos simpática é má ou mal intencionada. Mais importante ainda, nem toda a gente que é simpática é competente e honesta e não existe também ao que sei, nenhuma relação directa entre uma menor veia porreirista e desonestidade e incompetência.


Portanto, o que referi acima, leva a uma manifesta tendência para desvalorizar as falhas dos simpáticos, vendo apenas os seus atributos positivos e relativamente aos menos simpáticos, nem queremos ouvir o que eles têm para dizer por mais importante e realista que seja.
E na minha opinião é isto que explica que tenhamos agora um presidente da república absolutamente pateta e inútil (com selo de 60.7% porreirismo), um primeiro-ministro cínico e incompetente (38% porreirismo), e um líder da oposição também digamos...cinturão negro em porreirismo-maga, capaz das mais ternurentas fofices para com o governo, um querido até.
E se pensarmos um pouco, sendo o sistema partidário por si um intrincado sistema de networking intensivo, é fácil perceber que a porreiro-cracia é um fenómeno natural nestas circunstâncias, ou seja, os mais capazes de estabelecer relações, os mais sociáveis, os mais empáticos, são os que atingem o topo na hierarquia partidária. E como têm essas características atingem também o eleitorado potencialmente chegando a posições de poder.
Faz também o nacional porreirismo que não sejamos capazes de expressar o nosso protesto, indignação e expressar desagrado porque isso simplesmente não é porreiro, ainda para mais para contestar alguém simpático!? Nem pensar! Honra seja feita (ou talvez não) aos sindicatos e "activistas" de esquerda, que como sabemos não são, nem competentes, nem simpáticos, o que só comprova que a excepção confirma a regra.
Portanto, para atingir o topo na política, não basta ser correcto, cordial e assertivo, isso não chega, é preciso ser uma estrela, uma miss simpatia e acusar números generosos no porreirometro. Se Passos coelho tivesse o sorrizinho sapudo do Costa ou o pepsodente ninja do Marcelo, eram maiorias absolutas umas atrás das outras.
Por mim, apenas interessa o que dizem as pessoas no sentido se corresponde aquilo que fazem, para atentar da sua credibilidade, de resto avalio-as não tanto pela sua simpatia, mas sim pelas suas acções e valores, resumindo pelo seu carácter. O Ramalho Eanes é um bom exemplo disto e pode até levar a crer, que um estadista é tendencialmente um homem sério e de sorriso menos solto. 

Assim, talvez nos reste ser uma espécie de Cuba da Europa em que recebemos os turistas e fazemos tudo por eles, já que, das coisas bem Portuguesas que vai havendo para vender por cá são o sol e a simpatia e esta, não sendo obviamente um defeito, também não deve ser uma matriz de avaliação de carácter.



29 de abril de 2021

A Madre Teresa "veste" Prada

Estava o Bróculo ao primeiro espreguiço da manhã, como sempre, a pensar em como salvar o mundo e logo me vieram algumas ideias à cabeça, por sinal, algumas delas boas para variar. Vai daí, surgiu-me a seguinte questão:

Quem é que deveria ser a pessoa mais rica do mundo? (não, a resposta não é Carlos Moedas).

Será que essa pessoa, deveria ser aquela que metia os computadores da malta todos a crashar e que, de repente, desde que se reformou, a coisa melhorou? Será porventura justo que seja aquela pessoa que nos vende tudo e um par de botas (que nunca serve) através da internet? Será aquele gajo que dá uns pontapés na bola com vista a desacreditar as leis da física ou o anão que finta três na cabine telefónica, faz a chamada prometendo mais três iguais a quem atender? Por ventura, aquele gajo que nos mete todos a cuscar a vida uns dos outros, cuscando depois quem cusca? Seriam os cientistas que inventam a cura para as nossas maleitas, ou melhor, para única doença existente aos dias de hoje de seu nome covid 19? Será o rapaz que brinca com foguetões e carrinhos a pilhas e quer ir morar para Marte porque isto aqui está a ficar um pouco seco e empoeirado?

Num mundo ideal, talvez a pessoa mais rica do mundo devesse ser a melhor pessoa, a mais altruísta, generosa e inspiradora, contudo, por razões religiosas e miserabilistas originárias na religião católica, existe a crença generalizada, não só de que quem é rico não chega ao céu - já que São Pedro é um porteiro absolutamente incorruptível - como também de que, quem é altruísta, generoso e inspirador é um pobretanas que não tem onde cair morto.

Alguns dos exemplos que citei como pessoas que foram, são ou poderão vir a ser potencialmente as mais ricas do mundo (futebolistas à parte), como Bill Gates, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos ou Elon Musk, ficaram estupidamente ricos primeiro e só depois, eventualmente se tornaram generosos e altruístas filantropos. As más línguas poderiam dizer que depois de não saberem o que fazer com tanto dinheiro, resolvem doa-lo, às tantas numa operação de charme para com são S. Pedro, à procura do supremo "like".

Agora, falando de incentivos, qual é a motivação inconsciente para se querer ser altruísta (sim, sei o significado) se isso implica quase sempre no subconsciente colectivo, ser um pobre sacrificado? Porque terá o benfeitor de enriquecer primeiro para dar depois e não prosperar ao longo da sua vida oferecendo os seus préstimos ao bem comum?

Porque é que se a Madre Teresa vestisse Prada não seria a mulher que foi? Porque é que o miserabilismo é tão "fashion"?

Num mundo de inacreditável abundância (mal distribuída é certo) seria justo que aqueles que a partilham, criam ou induzam sempre usufruíssem dela.

A pessoa mais altruísta, generosa e inspiradora do mundo, ou seja, a pessoa mais rica, por mim, pode vestir o que quiser, mas o que quiser não tem de caridade.



16 de janeiro de 2021

O pangolineiro guloso

 Wuhan, Janeiro de 2021, algures nesta cidade habita um individuo que terá comido a refeição mais culposa que alguma vez a humanidade terá provado. Esqueçam as pizzas enqueijadas, os hambúrgueres laganhosos, os petiscos regionais, os doces conventuais ou francesinhas. Isto foi um míssil inter-continental alimentar a que um Pangolineiro guloso não resistiu, sucumbindo ao delicado perfume da carne do curioso bicharoco, com a língua do tamanho do corpo (um pouco como o nosso presidente da república) e que, ao comê-lo, se tornou num fazedor de história. Não é uma história boa como sabemos, ser o número #1 tem destas coisas, muitas vezes esta condição cega ou prejudica os que se/nos seguem. Trata-se de uma questão de culpa e responsabilidade.

Noutras latitudes temos outro pedaço de biologia "humana", fúria carotena por excelência, a gula que o alimenta não é tão inocente, já não se trata do simples aroma da iguaria com total desconhecimento das inimagináveis consequências. O pangolineiro guloso de Wuhan matou milhões de pessoas sem imaginar que o estaria a fazer, já Trump acha-se mais importante que todas e quaisquer possíveis consequências. Um, é culpado mas inocente, outro diz-se vítima inocente, mas é culpado.

O que nos traz de volta à questão da responsabilidade e à nossa latitude. Por cá, a responsabilidade é sempre dos outros, é como o oposto do dinheiro, se encontras uma nota no chão, ela é tua. Já a responsabilidade, os outros que fiquem com ela! Quem a tem guarda uma grande dose de parcimónia em assumir a sua abundância. Ouvimos muitas vezes Trump dizer que é rico, mas não o ouvimos falar da grande responsabilidade que tem, tal como António Costa, Eduardo Cabrita, Marta Temido ou Francisca Van Dunen, estes não resistiram ao aroma do poder e influência, mas desculpam a sua responsabilidade demonstrando a fraqueza do seu carácter e a sua pequenez, porque um líder só será tão grande, quanto a responsabilidade que for capaz de assumir e esse é o preço a pagar pelo poder que tem. Aquele que quer o que os outros dispensam será sempre bem vindo.