Bróculo
Pois meus caros amigos estou a falar do pessoal do incenso…
Tenho a certeza que já lidaram com alguém pertencente a esta seita. Eles estão por todo o lado e buscam dentro de si a iluminação através da meditação e veneração.
Quando estão a almoçar reparem…inspirem…sentem o cheiro? Pois é, espantoso não? Ali estão eles ao canto da sala, com o seu café e o seu pauzinho de incenso sagrado, inalando-o com uma fé enternecedora e expirando essa fé em profundos e afirmativos tragos oferecendo-a a todos! Que generosidade! Buda ficaria orgulhoso!
A deusa nicotina é a quem prestam homenagem e não se incomodam de pagar uma elevada dizima ao adquirirem os pauzinhos de incenso sagrado, é tudo por uma boa causa, é ela tão-somente, o bem comum! Afinal é a salvação que está em causa, a deles, a nossa, a de todos! Novos ou velhos, saudáveis e frágeis, a todos toca o sagrado fumo! Que felicidade!
Aqui deixo o meu muito obrigado fies profetas, cintilantes luzes de inteligência e sabedoria, seres de hálito fresco e visão infinita…Muito obrigado!
s. f., qualidade de tímido;
temor habitual;
acanhamento;
embaraço.
Não acreditam? Já repararam na quantidade de grelos, alfaces, couves, pepinos, cenouras e outros que para ai andam a esconder-se? Não? Então acho que podíamos ficar por aqui mas no âmbito do meu espírito construtivo vou elaborar…
Temor, acanhamento, embaraço e permito-me introduzir também "vergonha", fazem parte do léxico da timidez, mas porquê? Alguém sabe? Ok, eu explico.
A timidez existe porque não estamos no mundo sozinhos, é tão simples quanto isto. Acham que alguém se ia preocupar em olhar à volta cada vez que dá uma palhaça se estivesse sozinho? Acham que ia rir se lhe apetecia chorar ou dizer “que aborrecido” se lhe apetecia praguejar?
Onde é que o bróculo quer chegar? Bem, sabendo-se que a percepção que temos de nós é o reflexo da maneira como nos tratam, basicamente temos um receio monstruoso de dar a tal palhaça e acharmos que esse é o nosso estado natural e definitivo.
Por isso meus amigos de horta a timidez é a causa do medo que temos do que os outros pensam de nós porque temos medo de ser aquilo que vemos nos outros(ufa!)…Se calhar posso dizer então que a timidez és tu, sou eu, enfim, somos todos nós porque nos julgamos e somos julgados uns pelos outros…
Experimentem vendar os olhos e andar a fazer macacada ou imaginem que toda a gente era ceguinha menos vocês, a que conclusão é que chegam? Podiam comportar-se ao nível de um Valentim Loureiro sem qualquer tipo de recalcamento de origem vegetal, donde se conclui que um GRANDE,GRANDE ego é uma venda de cabra cega e o antídoto perfeito para a timidez…Pensem nisto e comentem se não tiverem temor, acanhamento ou embaraço claro!
Então meus amigos passemos ao que interessa, a primeira palavra que o bróculo vai definir no seu ficcionário é MORTE. Confesso que não era para o fazer mas as circunstâncias da vida infelizmente assim o ditaram. O ficcionário não terá uma organização sequencial e estruturada, é apenas um “livro” de vida, um ângulo de visão como outro qualquer.
Assim, comecemos pelo fim, como fazemos com a revista que levamos para ler na casa de banho enquanto o politicamente correcto de despenha na água fria que nos respinga nas nádegas.
Morte
do Lat. Morte
s. f., acto de morrer;
fim da vida animal ou vegetal;
termo de existência;
acabamento;
fim;
Isto claro, é o que podemos encontrar no dicionário mas o bróculo, tem algumas coisas a dizer acerca deste tema, que de resto, não é visto da mesma forma por diferentes religiões, credos e culturas que têm diferentes relações com a morte. Umas mais positivas, outras nem tanto até porque também é uma questão pessoal.
Talvez uma só frase de Benjamin Franklin ajude:
O homem fraco teme a morte, o desgraçado chama-a; o valente procura-a. Só o sensato a espera.
É um bocado como o câmbio, numas partes do mundo a morte tem diferentes valores por exemplo uma death americana equivale a 50 al-quinadelas Iraquianas…
A mim parece-me que a morte é o limite, o limite de tudo, não só da vida mas também o limite da sorte, do risco, o limite do destino.
A morte é uma espécie de velho conhecido que nunca vimos mas sabemos que estamos destinados a encontrar um dia. Entretanto lá vamos sabendo que o fulano x encontrou o gajo quando escorregou numa casca de banana à porta de casa, fulano y viu o tipo quando sufocou ao engolir um malteeser, enfim, quando finalmente o encontramos só nos resta dizer “oh! Meu caro amigo, não se apresente, já ouvi falar muito de si!”.
Imagino que seja, não um gajo tipo fã dos moonspell acabado de vir de uma manifestação para pagamento das medidas agro-ambientais mas mais um gajo tipo cobrador do fraque ou até mais discretamente o homem do fraque que simplesmente anda por ai…
Entretanto vamos bebendo uns copos, cantando o fado, e esperando que nem nós, nem ninguém amigo o encontre porque pronto pá, é um gajo mesmo chato, e por vezes cruza-se com as pessoas que mais amamos neste antónimo que é a vida. Só nos resta ser sensatos até ao dia em que reencontrarmos aqueles que amamos porque dizem, o gajo é chato mas leva-nos até eles.
Eu queria ver o que vocês fariam se tivessem trincado aquele bróculo naquele dia.
Foi um daqueles momentos em que a tecnologia, neste caso, um microondas e a natureza, neste caso um bróculo, se conjugaram para fazer de mim uma pessoa diferente.
Juntamente com aquele bróculo em brasa, engoli o politicamente correcto e se estão familiarizados com o sistema digestivo, sabem perfeitamente o que lhe aconteceu...
As sequelas foram no entanto mais profundas, julgo ter ficado com a língua um pouco mais afiada, afiada ao ponto de ter que reformular os alicerces da língua portuguesa!
O ficcionário da língua Portuguesa das edições bróculo&brasa tem o destino traçado, nada será como dantes!